domingo, 23 de abril de 2006

"Tudo sob controle"

Naquele dia não pôde despedir-se. Estava atrasado demais e não havia tempo para burocracias ou coisa parecida. Um beijo rápido poderia prejudicar todo o andamento de um dia cheio. Pensou... Não, não pensou, pois não tinha tempo. Entrou no carro jogando os papéis de um banco para outro e quase se esqueceu de sentir o gosto amargo que o café deixara no céu de sua boca. Este era um dos poucos rituais que ainda fazia e um dos poucos prazeres de todo o seu dia. Ligou o carro, o ar, o som. Não, o som não; não gostava de música àquela hora da manhã. Na verdade em hora nenhuma. Firmou as mãos no volante, o olhar na pista e a mente na carreira. O coração já não era requisitado há anos. Como quem está bem, ligou o carro e partiu para mais um dia de trabalho. Sem questionamentos. Sem afetações. Tudo sob controle.

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