domingo, 23 de abril de 2006
O Homem sangue
Ele fugiu. Saiu correndo ensangüentado, após ter se arrastado por quase duas horas por entre um ladrilho mais estreito que a espessura de seu corpo. Como? Até agora tentam responder. O fato é que ele, apesar de gravemente ferido, sentia uma profunda alegria que movia suas pernas na velocidade que lhe era possível. Saltava! Ouvia uma música sem nome e de ritmo desconhecido que lhe embalava ladeira abaixo numa cena em câmera lenta. Olhava em seu entorno, mas não via nada nem ninguém. Deslumbrado, apenas corria sorrindo. O sangue que lhe escorria, não o incomodava. Era como se fosse um bálsamo brilhante que sua alma expelia. O passado não lhe cabia mais. O futuro não existia. E o presente era um presente que ele permitia a si mesmo e aos outros. Não sofria, não tinha tempo. Nada era novo ou repetido, tudo era lindo, limpo, cristalino. Tentaram agarrá-lo, pretendiam socorrê-lo. Mas de quê? Alguns o queriam ver preso. Outros o queriam não ver. Todos o invejavam. Dos que olhavam de dentro do prédio branco, dos que olhavam de dentro do prédio cinza. Ninguém passava ileso àquela imagem viva que pulsava diante de si. Em dado momento, parou. Começou a olhar as pessoas em volta e a enxergá-las. Começou a sentir a dor a que seu corpo se expusera. Viu e sentiu-lhe o sangue escorrendo ferimentos afora por todo o corpo. Doeu-se todo. Doou-se ao chão numa queda incessante, pois mesmo no chão, ainda caia. Um amontoado de curiosos, sedentos de sangue e dor alheias, fechou logo um cerco ao seu redor, que aos poucos deixava de ser seu. Os comentários lhe furavam a cabeça e lhe furtavam o que ainda restava de consciência. Tudo tomava dimensões gigantescas. Cada sussurro, um grito estridente. Cada passo, uma batida de estremecer o chão. O Sol... Ah! O Sol... Parecia que estava deitado sobre o Sol, mas estava apenas sob o Sol e, mesmo assim, suava sangue. Já não via ou ouvia nada. A dor era passado. Suspirou pela metade, tentou lembrar daquela música... aquela mús... Descansou. Após dezessete minutos, um funcionário limpava uma possa de sangue com criolina e o dia seguia seu curso normal.
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